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Um jardim de coral raro nas profundezas dos Açores: a descoberta que só agora chegou à ciência

climate2026-08-17 · 4 min read · 25 reads

A mais de 800 metros de profundidade, investigadores portugueses documentaram um raro jardim de coral endémico da Macaronésia. Descrito apenas este ano, mais de uma década após a expedição, o achado acende um alerta para a conservação das profundezas atlânticas.

Muito por baixo da superfície agitada do Atlântico, onde a luz do sol já não chega, esconde-se um tesouro que só agora revelou os seus segredos. Investigadores portugueses documentaram, nas profundezas dos Açores, um raro jardim de coral que permanecia praticamente desconhecido da ciência. O achado, feito a mais de 800 metros de profundidade, lembra-nos o quanto ainda ignoramos sobre o nosso próprio oceano. E mostra também a paciência que a investigação científica muitas vezes exige.

Um jardim escondido a 800 metros

A descoberta diz respeito a um jardim de coral da espécie Crypthelia vascomarquesi, observado entre os 832 e os 856 metros de profundidade. A observação inicial remonta a uma expedição realizada a 25 de julho de 2012, o que dá a dimensão do tempo que passou até à divulgação. Trata-se de um ecossistema situado numa zona de difícil acesso, que exige tecnologia sofisticada para ser explorado. Cada mergulho a estas profundidades é, por si só, um pequeno feito técnico e científico.

O que torna esta espécie particularmente especial é a sua raridade geográfica. A Crypthelia vascomarquesi é endémica da zona portuguesa da Macaronésia, que inclui os arquipélagos dos Açores e da Madeira. Por outras palavras, este coral só existe nesta região do planeta e em nenhum outro lugar. Identificada pela primeira vez em 1992, permanecia envolta em mistério quanto à forma como se organiza no fundo do mar.

O aspeto talvez mais surpreendente desta história é o seu ritmo. O estudo só foi anunciado à comunidade científica em março de 2026, na revista Marine Biodiversity, mais de dez anos após a expedição inicial. Este intervalo revela como a ciência do mar profundo é lenta, meticulosa e exigente. Recolher dados, analisá-los e validá-los para publicação pode levar muito mais tempo do que o público imagina.

Este coral só existe nos Açores e na Madeira, e em nenhum outro lugar do planeta.

O que é um jardim de coral

Imagem ilustrativa de um jardim de coral. Nas profundezas dos Açores, estas aglomerações densas de colónias formam ecossistemas raros e frágeis.
Imagem ilustrativa de um jardim de coral. Nas profundezas dos Açores, estas aglomerações densas de colónias formam ecossistemas raros e frágeis.

Mas o que significa exatamente a expressão jardim de coral? Segundo a bióloga marinha Íris Sampaio, autora principal do estudo, o conceito é usado quando se está perante uma aglomeração relativamente densa de colónias ou indivíduos de uma ou mais espécies de corais. Não se trata, portanto, de um coral isolado, mas de uma verdadeira comunidade viva. Estas estruturas funcionam como oásis de biodiversidade no meio das vastas planícies do fundo oceânico.

A importância destes jardins vai muito além da sua beleza. Os corais de profundidade criam habitats tridimensionais que servem de abrigo, refúgio e zona de reprodução para inúmeras outras espécies. Num ambiente tão hostil como o mar profundo, cada uma destas estruturas pode sustentar toda uma teia de vida. Perder um jardim de coral significa, muitas vezes, perder também tudo o que dele depende.

Este achado insere-se, aliás, num contexto mais amplo de exploração das profundezas açorianas. Investigações recentes na região identificaram cerca de 15 novas espécies para a ciência ao longo de mais de mil mergulhos. Os Açores revelam-se, assim, um dos grandes reservatórios de corais e esponjas de água fria do Atlântico. Cada expedição parece acrescentar novas peças a um puzzle que está longe de estar completo.

Um tesouro ameaçado

Perante esta riqueza, os investigadores não escondem a preocupação. Ao anunciarem a descoberta, alertam de imediato para a necessidade de conservar este raro ecossistema marinho. A fragilidade destes habitats de crescimento lentíssimo torna-os especialmente vulneráveis a qualquer perturbação. Um dano causado hoje pode levar séculos, ou mais, a ser reparado pela natureza.

As ameaças que pairam sobre o mar profundo são múltiplas e crescentes. O aquecimento e a acidificação dos oceanos, a intensificação de fenómenos extremos e a poluição química e plástica estão a alterar profundamente a estrutura das comunidades biológicas. A estas somam-se atividades humanas como a pesca de arrasto ou a potencial exploração mineira do fundo do mar. Ecossistemas que sobreviveram milénios podem ser destruídos numa questão de horas.

É precisamente aqui que reside o valor estratégico de descobertas como esta. Só é possível proteger aquilo que conhecemos, e cada nova espécie documentada reforça os argumentos para a criação de áreas marinhas protegidas. Ao dar nome e rosto a este jardim de coral, os cientistas transformam-no de curiosidade em prioridade. O conhecimento torna-se, assim, a primeira linha de defesa do oceano.

Os Açores confirmam, uma vez mais, o seu papel de guardião de uma biodiversidade única no Atlântico. A sua posição geográfica e a profundidade das suas águas fazem do arquipélago um verdadeiro laboratório natural. Para Portugal, valorizar e estudar este património submerso é também afirmar a importância do país nas ciências do mar. O oceano profundo é, afinal, uma das últimas grandes fronteiras por explorar.

No final, a história deste jardim de coral é também uma lição de humildade. Mais de uma década separou a sua observação da sua descrição, e ainda assim ele permanecia ali, silencioso, à espera de ser compreendido. Quantos outros tesouros semelhantes existirão ainda por revelar nas profundezas? A resposta dependerá da vontade de continuar a explorar e, sobretudo, de proteger aquilo que encontramos.

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