Miguel SousaVIEW PROFILE →
Eclipse solar total de agosto de 2026: Portugal viveu um fenómeno histórico e a ciência mobilizou-se para o estudar
No dia 12 de agosto de 2026, Portugal assistiu ao seu primeiro eclipse solar total em mais de cem anos. Enquanto o país observava o céu, uma verdadeira operação científica internacional, no ar e no espaço, procurou captar cada segundo do fenómeno.
O céu ofereceu a Portugal um espetáculo verdadeiramente raro no passado dia 12 de agosto de 2026. Um eclipse solar total atravessou uma faixa do planeta, proporcionando aos observadores um dos fenómenos astronómicos mais aguardados da década. Para o território português, o acontecimento revestiu-se de um significado especial, marcando o regresso de um evento que não se via há mais de um século.
Um eclipse histórico para Portugal
A sombra da Lua percorreu a Terra a uma velocidade impressionante de cerca de 8.000 quilómetros por hora, desenhando um trajeto que passou pelo Ártico russo, pela Gronelândia, pela Islândia, por Espanha e por uma pequena área de Portugal, antes de seguir para o mar Mediterrâneo. Tratou-se do primeiro eclipse solar total visível em solo português desde o já longínquo ano de 1912.
Em Portugal continental, o fenómeno teve início por volta das 18h30, atingiu o seu ponto máximo perto das 19h30 e terminou aproximadamente às 20h30. Os níveis de ocultação do Sol variaram bastante consoante a região, indo de uns impressionantes 99,9 por cento em Bragança, no extremo nordeste do país, até aos 92,8 por cento registados em Faro, no sul do Algarve, uma diferença notável entre latitudes.
No entanto, a fase de totalidade, aquele momento mágico em que o Sol fica completamente encoberto, apenas foi visível numa pequena zona muito específica. Esse privilégio coube ao Parque Natural de Montesinho, junto à localidade de Guadramil, em Bragança, onde a escuridão durou entre 20 e 26 segundos. Nas regiões autónomas, a Madeira registou 77,6 por cento de ocultação e os Açores valores entre 72,5 e 77,6 por cento.
Esta brevíssima janela de totalidade em território português contrasta com o que se observou noutras zonas do trajeto. Na parte norte da Península Ibérica, a duração máxima do fenómeno chegou a rondar 1 minuto e 30 segundos, um período consideravelmente mais generoso. Ainda assim, mesmo com apenas alguns segundos de escuridão total, a experiência em Bragança foi suficiente para entrar definitivamente nos livros de história da astronomia nacional.
A caça científica ao eclipse

Muito para além do fascínio do público, o eclipse representou uma oportunidade científica de ouro. A agência espacial norte-americana NASA mobilizou uma aeronave WB-57, que voou a cerca de 15.000 metros de altitude equipada com o instrumento SAMI. Este aparelho foi capaz de captar 20 imagens por segundo, tanto no espetro visível como no infravermelho, perseguindo a sombra a uma velocidade de aproximadamente 740 quilómetros por hora.
Também a Europa marcou presença nos céus com uma missão de grande relevo. Uma equipa liderada pelo Dublin Institute for Advanced Studies, em colaboração com o Trinity College Dublin e outras instituições, utilizou uma aeronave C-295 a cerca de 3.000 metros de altitude. A bordo seguia o instrumento E-CorMag, desenvolvido a partir de componentes de reserva das missões Proba-3, da ESA, e Solar Orbiter, da NASA, sob a coordenação da cientista Laura Hayes.
O interesse foi de tal ordem que surgiram até iniciativas de caráter privado. Uma aeronave King Air, operada pela empresa islandesa Norlandair na missão batizada de Umbracept, transportou passageiros a mais de 9.000 metros de altitude por um bilhete que custava 4.500 euros. Simultaneamente, o projeto de balões da NASA lançou 80 balões na Islândia e outros seis em Espanha, equipados com câmaras de 360 graus e sensores de ozono.
O olhar a partir do espaço
Se no ar a atividade foi intensa, a partir do espaço a observação atingiu um patamar histórico. A bordo da Estação Espacial Internacional, a astronauta da NASA Jessica Meir conseguiu observar um eclipse parcial, com um pico de cobertura solar de cerca de 18 por cento. Estas imagens vistas de órbita oferecem uma perspetiva única e complementar àquela que é possível obter a partir da superfície terrestre.
O grande momento coube, porém, à missão Proba-3 da Agência Espacial Europeia. Composta por duas naves que voam em formação perfeita alinhadas com o Sol, esta missão conseguiu registar aquilo que é considerado o primeiro duplo eclipse da história. O feito consistiu em captar em simultâneo o eclipse natural provocado pela Lua e um eclipse artificial criado pelo seu próprio coronógrafo, que bloqueia o disco solar.
Outros satélites contribuíram igualmente para este esforço de observação global. O Meteosat Third Generation Imager, da ESA, posicionado a cerca de 36.000 quilómetros de altitude, captou a passagem da sombra da Lua sobre a superfície do planeta. O mesmo fenómeno foi registado pelo satélite geostacionário GOES-19, da agência norte-americana NOAA, fornecendo uma visão à escala continental.
Ciência em constante mudança
Toda esta mobilização justifica-se pela importância científica destes raros instantes de escuridão. Como resumiu o cientista Amir Caspi, do Southwest Research Institute, o Sol está sempre a mudar e cada eclipse é diferente, pelo que podem sempre observar-se fenómenos nunca antes vistos. O eclipse de agosto de 2026 fica assim na história, não apenas como um espetáculo memorável, mas como uma valiosa lição de ciência.






