Miguel SousaVIEW PROFILE →
O maior filme do cosmos já começou: o Observatório Vera Rubin inicia a sua década de descobertas
A 30 de junho de 2026, o Observatório Vera C. Rubin, no Chile, iniciou oficialmente o Legacy Survey of Space and Time. Em apenas semanas de testes já tinha encontrado mais de 11 mil asteroides. Agora promete catalogar dezenas de milhares de milhões de objetos ao longo de dez anos.
Há projetos científicos que prometem mudar uma disciplina inteira, e o Observatório Vera C. Rubin é seguramente um deles. Instalado no topo do Cerro Pachón, no norte do Chile, este telescópio começou finalmente a cumprir aquilo para que foi concebido ao longo de mais de duas décadas de planeamento e construção meticulosa.
A data ficará marcada nos livros de história da astronomia. A 30 de junho de 2026, o observatório iniciou oficialmente o Legacy Survey of Space and Time, conhecido pela sigla LSST, um levantamento sistemático do céu que se estenderá pelos próximos dez anos e que representa uma mudança de escala sem precedentes na forma como observamos o universo.
Uma torrente de asteroides em poucas semanas

Para perceber o potencial deste instrumento, basta olhar para o que aconteceu ainda antes do início oficial do levantamento. Durante apenas seis semanas de observações na fase de otimização, o telescópio descobriu mais de onze mil asteroides até então completamente desconhecidos, um número que deixou a própria comunidade científica surpreendida.
Entre esses corpos celestes contavam-se 33 objetos próximos da Terra e cerca de 380 objetos transneptunianos, situados para lá da órbita de Neptuno, nos confins gelados do sistema solar. Importa sublinhar que nenhum dos novos objetos próximos da Terra representa qualquer ameaça para o nosso planeta, segundo os investigadores responsáveis.
Somando as várias fases de teste, o observatório acumulou perto de 12 700 asteroides identificados ao longo de cerca de ano e meio. A comparação é reveladora: aquilo que tradicionalmente levava anos ou até décadas a ser descoberto por outros telescópios, o Vera Rubin consegue agora desvendar em poucos meses de funcionamento.
Recordes e objetos exóticos
Entre as descobertas mais notáveis está um asteroide que bateu um recorde de rotação. Batizado 2025 MN45, este corpo com cerca de 710 metros de diâmetro completa uma rotação sobre si próprio a cada 1,88 minutos, tornando-se o asteroide de maiores dimensões conhecido a girar a uma velocidade tão vertiginosa e difícil de explicar.
Estes resultados não são meras curiosidades. A capacidade de detetar objetos que se movem rapidamente ou que variam de brilho abre uma janela para fenómenos transitórios que antes passavam despercebidos, desde supernovas que falham até visitantes interestelares que atravessam fugazmente o nosso sistema solar sem deixar rasto.
O caminho até este momento foi longo e cuidadosamente planeado. A transição para operações ocorreu em outubro de 2025, e em fevereiro de 2026 foi lançado o sistema de alertas em tempo real, que numa única noite chegou a registar centenas de milhares de deteções de fenómenos transitórios no céu noturno do hemisfério sul.
Uma década a mapear o universo
O que torna o Vera Rubin verdadeiramente revolucionário é a sua ambição a longo prazo. Ao longo dos próximos dez anos, o observatório irá fotografar repetidamente o céu do hemisfério sul, captando centenas de imagens por noite e construindo aquilo que muitos descrevem como o maior filme já feito do cosmos em constante movimento.
Quando o levantamento estiver concluído, o catálogo resultante será colossal. As estimativas apontam para o registo de cerca de 17 mil milhões de estrelas e 20 mil milhões de galáxias, além de milhões de fenómenos transitórios, um arquivo que servirá gerações de investigadores muito para além dos que hoje trabalham no projeto.
Para a ciência, e também para o público português apaixonado por astronomia, este é um daqueles momentos raros em que se sente o chão a mover-se sob os pés do conhecimento. O Observatório Vera Rubin não vai apenas responder a perguntas antigas sobre a matéria escura e a energia escura; vai quase certamente levantar outras que ainda nem sabemos formular.






