Miguel SousaVIEW PROFILE →
Estaremos sos no universo? O sinal intrigante que o James Webb detetou num planeta distante
O telescopio James Webb detetou numa atmosfera distante uma molecula que na Terra so a vida produz. Explico de forma simples o que se sabe sobre o planeta K2-18b, porque isto entusiasma os cientistas e porque, ao mesmo tempo, e preciso muita prudencia.
Escrevo sobre ciencia e espaco, das novas descobertas aos misterios do universo, e poucas perguntas sao tao antigas e fascinantes como esta, estaremos sozinhos no cosmos, e em 2026 o telescopio espacial James Webb voltou a colocar esta questao no centro das atencoes ao detetar algo verdadeiramente intrigante num planeta muito distante.
Antes de mais convem explicar como e que um telescopio consegue farejar a composicao de mundos a anos-luz de distancia, e a resposta e engenhosa, porque quando a luz de uma estrela atravessa a fina atmosfera de um planeta que passa a sua frente, deixa uma especie de impressao digital quimica que o Webb sabe ler com uma precisao inedita.
Foi assim que, ja em 2025 e agora em 2026, os cientistas detetaram na atmosfera de um planeta chamado K2-18b uma molecula com um nome complicado, o sulfureto de dimetilo, ou DMS, e e precisamente aqui que a historia se torna emocionante, porque na Terra esta substancia e produzida quase exclusivamente por seres vivos.
Para sermos rigorosos, na Terra o DMS provem sobretudo de microorganismos marinhos, minusculas formas de vida que povoam os nossos oceanos, e por isso a sua deteccao num outro mundo levanta imediatamente a hipotese mais entusiasmante de todas, a de que possamos estar a olhar para o sinal indireto de vida noutro planeta.
Uma molecula que na Terra so a vida produz

E precisamente por ser tao importante que esta descoberta exige uma dose enorme de prudencia, e faco questao de o sublinhar, porque a presenca de DMS nao e de forma alguma uma prova de vida, ja que podem existir outras explicacoes, incluindo reacoes quimicas ainda desconhecidas que nada tenham a ver com organismos vivos.
O verdadeiro feito historico, mais do que uma eventual descoberta de vida, e que o James Webb e o primeiro telescopio suficientemente sensivel para sequer conseguir colocar esta pergunta de forma seria, transformando aquilo que ate ha pouco pertencia a ficcao cientifica num tema de investigacao rigorosa e mensuravel.
Vale a pena conhecer um pouco melhor este mundo tao falado, porque o K2-18b nao e um planeta como a Terra, mas sim um corpo bastante maior, situado a cerca de cento e vinte anos-luz de distancia e a orbitar uma pequena estrela ana vermelha, numa zona onde as temperaturas poderiam, em teoria, permitir a existencia de agua liquida.
Muito mais do que um planeta
Esta caca a biossinais e apenas uma parte de uma revolucao maior, porque ate 2026 o James Webb ja analisou as atmosferas de dezenas de planetas fora do nosso sistema solar, detetando dioxido de carbono, vapor de agua, metano e dioxido de enxofre, e criando assim o primeiro inventario quimico detalhado de mundos alem do nosso.
E o telescopio nao para de nos surpreender noutras frentes, pois olhou tao longe no tempo que captou a luz de galaxias formadas apenas trezentos milhoes de anos apos o Big Bang, a luz mais antiga alguma vez observada, revelando galaxias tao brilhantes e massivas que desafiam os proprios modelos sobre a formacao do universo.
Tudo isto mostra que vivemos uma verdadeira idade de ouro da astronomia, em que perguntas que durante seculos foram apenas filosoficas passaram finalmente para o campo da observacao, e cada nova imagem do Webb nos obriga a rever aquilo que julgavamos saber sobre o nosso lugar no cosmos.
A minha conclusao, explicada de forma simples, e que ainda nao encontramos vida noutro planeta, e talvez esteja para breve ou talvez ainda demore muito, mas o simples facto de termos agora os olhos capazes de procurar por ela ja e, em si mesmo, uma das aventuras mais extraordinarias da historia da humanidade.






