Miguel SousaVIEW PROFILE →
O Sol como nunca o vimos: a Solar Orbiter revela pela primeira vez os polos da nossa estrela
Durante toda a história, a humanidade só conseguiu observar o Sol de lado, a partir do plano da eclíptica. Agora a sonda Solar Orbiter, da Agência Espacial Europeia, inclinou a sua órbita e captou as primeiras imagens de sempre dos polos solares, revelando um campo magnético caótico no polo sul e pr
Durante toda a história da astronomia, houve uma parte do Sol que a humanidade nunca tinha conseguido ver: os seus polos. Habituámo-nos a observar a nossa estrela sempre de lado, a partir do mesmo plano em que a Terra e os restantes planetas a orbitam, deixando as regiões polares como um verdadeiro ângulo morto do cosmos.
Séculos a olhar de lado
A razão é puramente geométrica. Quase tudo o que existe no Sistema Solar, incluindo os telescópios e as sondas que enviámos ao espaço, move-se mais ou menos no mesmo plano, conhecido como plano da eclíptica, o que significa que sempre olhámos para o Sol praticamente ao nível do seu equador.
Isto transformou os polos solares num dos maiores pontos cegos da ciência, apesar de serem justamente as regiões mais importantes para compreender o comportamento magnético da estrela, os seus ciclos de atividade e as tempestades que de vez em quando ameaçam a nossa tecnologia aqui na Terra.
Uma órbita inclinada
Foi precisamente para resolver este problema que a Agência Espacial Europeia concebeu a missão Solar Orbiter, uma sonda desenhada para fazer algo raríssimo: sair do plano habitual e inclinar a sua órbita, de modo a poder espreitar o Sol de cima e de baixo, a partir de latitudes nunca antes alcançadas.
Em fevereiro de 2025, a sonda iniciou finalmente a fase de altas latitudes da sua viagem, inclinando a órbita cerca de dezassete graus em relação ao equador solar, um ângulo conseguido à custa de sucessivas passagens por Vénus, cuja gravidade foi usada para empurrar a nave para fora da eclíptica.
Um campo magnético caótico

Deste novo ponto de observação privilegiado nasceram as primeiras imagens e vídeos de sempre a mostrar os polos do Sol, um marco histórico que permitiu à ciência ver, com os próprios olhos, aquilo que durante séculos apenas pôde imaginar ou deduzir de forma indireta e incompleta.
E o que os instrumentos revelaram foi surpreendente. O aparelho responsável por medir o magnetismo solar, conhecido pela sigla PHI, encontrou no polo sul da estrela uma estrutura magnética caótica, com polaridades norte e sul misturadas, em vez de um padrão simples e ordenado como seria de esperar.
Este aparente caos não é, porém, um erro nem um mero acaso: os cientistas acreditam que ele reflete um momento muito particular do Sol, próximo do pico da sua atividade, quando o campo magnético global se prepara para inverter completamente a sua polaridade, algo que acontece de forma cíclica e regular.
Porque é que os polos importam
Compreender o que se passa nos polos é essencial porque é aí que se joga grande parte do chamado ciclo solar, o ritmo de aproximadamente onze anos ao longo do qual a atividade da estrela sobe e desce, ditando a frequência das erupções e das enormes ejeções de matéria para o espaço.
Essas erupções não são um assunto meramente académico, pois quando atingem a Terra podem perturbar satélites, sistemas de navegação e até redes elétricas, razão pela qual a própria agência afirma que estas observações vão alterar de forma fundamental a nossa compreensão do campo magnético solar.
O trabalho está, no entanto, longe de terminar. O conjunto completo de dados desta primeira passagem chegou à Terra ao longo de 2025, e a sonda continuará a observar a partir desta inclinação até ao final de 2026, quando uma nova aproximação a Vénus a levará a ângulos ainda mais acentuados nos anos seguintes.
Passo a passo, órbita a órbita, a Solar Orbiter está a preencher um dos últimos grandes vazios no nosso conhecimento da estrela que nos dá vida, provando que, mesmo depois de milénios a olhar para o Sol, ainda há partes dele que a humanidade está apenas agora a descobrir verdadeiramente pela primeira vez.






