Miguel SousaVIEW PROFILE →
O detetive do universo escuro: como o telescópio Euclid da ESA se prepara para revelar os segredos da matéria invisível
Com uma primeira grande libertação de dados marcada para outubro de 2026, o telescópio espacial europeu Euclid começa a mapear a estrutura do cosmos observando milhares de milhões de galáxias. O objetivo é ambicioso: desvendar a natureza da matéria escura e da energia escura que dominam o Universo.
Cerca de noventa e cinco por cento do Universo é composto por algo que nunca vimos diretamente e que não conseguimos explicar por completo. A matéria escura e a energia escura formam este lado invisível do cosmos, moldando a sua estrutura e determinando o seu destino. É precisamente para desvendar este grande mistério que a Agência Espacial Europeia lançou uma das suas missões mais ambiciosas de sempre.
Uma missão para o lado invisível do cosmos
O telescópio espacial Euclid, da ESA, foi concebido com um propósito muito claro e extraordinariamente difícil: explorar a composição e a evolução do chamado Universo escuro. Trata-se de uma tarefa que exige uma precisão sem precedentes e que promete transformar profundamente a forma como compreendemos a origem e o funcionamento de tudo o que nos rodeia à escala cósmica.
Para atingir este objetivo monumental, o Euclid irá construir um mapa gigantesco da estrutura em larga escala do Universo, cruzando o espaço e o tempo. Para isso, observará milhares de milhões de galáxias situadas até uma distância impressionante de dez mil milhões de anos-luz, cobrindo mais de um terço de todo o céu visível a partir da sua posição no espaço.

Rastrear a expansão e a formação das estruturas
A missão central do Euclid, focada em estudar a natureza da energia escura, assenta em duas sondas fundamentais que se complementam uma à outra. A primeira dedica-se a seguir a história da expansão do Universo ao longo do tempo, enquanto a segunda procura traçar a forma como as grandes estruturas cósmicas se foram formando e organizando ao longo de milhares de milhões de anos.
Estas duas abordagens combinadas permitirão aos cientistas testar as suas teorias sobre a energia escura, essa força misteriosa que parece estar a acelerar a expansão do cosmos. Ao comparar como o Universo cresceu e como a matéria se agrupou ao longo do tempo, os investigadores esperam finalmente obter pistas sólidas sobre a verdadeira natureza deste fenómeno intrigante.
Nos próximos anos, o telescópio irá medir com enorme rigor as formas ligeiramente distorcidas de milhares de milhões de galáxias, ao longo de dez mil milhões de anos de história cósmica. Este trabalho meticuloso permitirá produzir uma visão tridimensional inédita da distribuição da matéria escura em todo o nosso Universo, algo nunca antes alcançado com este nível de detalhe.
A técnica das lentes gravitacionais
Uma das ferramentas mais poderosas ao dispor do Euclid é a chamada técnica das lentes gravitacionais fracas. Este método baseia-se no facto de a gravidade da matéria, mesmo a invisível, curvar a luz que passa perto dela, distorcendo subtilmente a imagem das galáxias que se encontram por trás. Analisando essas distorções, é possível inferir onde se esconde a matéria escura.
Antecipando os primeiros grandes resultados de cosmologia, previstos apenas para 2027, os cientistas já publicaram uma primeira demonstração das capacidades do telescópio. Ficou provado que o Euclid consegue efetivamente rastrear estruturas massivas dominadas por matéria escura, normalmente impossível de detetar, confirmando que a tecnologia funciona conforme o esperado e abrindo caminho às descobertas futuras.
Um tesouro de dados em outubro de 2026
O grande momento para a comunidade científica mundial está marcado para outubro de 2026, data prevista para a primeira libertação de dados à escala global. Este conjunto de informação dirá respeito ao levantamento nominal do Euclid e à sua ciência central, incluindo os aguardados resultados sobre a natureza da energia escura que domina a dinâmica do cosmos.
Entre os muitos alvos deste primeiro grande lançamento de dados de cosmologia, previsto para o final de 2026, contam-se cerca de sete mil candidatos a lentes gravitacionais fortes. Estes objetos são extremamente valiosos para os astrónomos, pois funcionam como verdadeiros laboratórios naturais para estudar a distribuição da massa e a geometria do próprio Universo.
As expectativas para o conjunto da missão são ainda mais impressionantes e reveladoras da sua dimensão. Até ao final dos trabalhos, o Euclid deverá identificar cerca de cem mil sistemas de lentes fortes entre galáxias, um número que representa aproximadamente cem vezes mais do que a totalidade dos casos atualmente conhecidos pela ciência, num salto verdadeiramente notável.
Em suma, o Euclid afirma-se como um autêntico detetive do universo escuro, pronto para iluminar aquilo que permanece nas sombras há tanto tempo. Para a Europa, e para países como Portugal que integram a Agência Espacial Europeia, esta missão representa não só um enorme feito tecnológico, mas também a oportunidade de participar numa das maiores aventuras científicas do nosso tempo.






