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Telescópio James Webb deteta água e poeira a sobreviver junto ao buraco negro gigante da Via Láctea

climate2026-08-19 · 4 min read · 306 reads

Usando o Telescópio Espacial James Webb, uma equipa internacional descobriu poeira rica em oxigénio e, pela primeira vez, água em torno de uma estrela situada a apenas 0,55 anos-luz do buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea, um ambiente extremo onde não se esperava tal resistência.

Uma equipa internacional de astrónomos, recorrendo ao Telescópio Espacial James Webb, descobriu que a poeira e a água conseguem formar-se e sobreviver no ambiente extremo que rodeia o Sagittarius A, o buraco negro supermassivo situado no centro da Via Láctea. O anúncio foi feito a 11 de agosto de 2026 e desafia ideias há muito estabelecidas sobre estas regiões.

As observações centraram-se na estrela IRS 3, um astro já numa fase evoluída da sua vida, conhecida como ramo assimptótico das gigantes. Esta estrela encontra-se a apenas 0,55 anos-luz do Sagittarius A, tem uma massa estimada em cerca de seis vezes a do Sol e uma idade de aproximadamente 72 milhões de anos. É a mais detalhada análise já feita no infravermelho médio a um astro tão próximo do buraco negro.

Utilizando o instrumento MIRI do Webb, que capta a luz no infravermelho médio, a equipa identificou assinaturas claras de poeira de silicatos rica em oxigénio, composta por silício e oxigénio. Mais importante ainda, detetou pela primeira vez a presença de água no invólucro que rodeia a estrela, algo notável dado o intenso ambiente de radiação em que ela existe.

Um ambiente extremo

O Sagittarius A é o buraco negro supermassivo que ocupa o coração da nossa galáxia, com uma massa equivalente a milhões de vezes a do Sol. As suas imediações são banhadas por radiação intensa e por forças gravitacionais colossais, condições que se julgavam demasiado hostis para a formação de poeira e para a sobrevivência de moléculas frágeis como a água.

Precisamente por isso, encontrar estes materiais intactos em torno da IRS 3 é surpreendente. Florian Peißker, da Universidade de Colónia, na Alemanha, que liderou o estudo, resumiu a importância do achado. Segundo ele, com o Webb é possível observar diretamente como as estrelas se comportam nestas condições e verificar que a produção de poeira se mantém notavelmente resistente.

A própria estrutura em redor da estrela impressiona. A IRS 3 está envolta numa concha em camadas que se estende por cerca de dez mil unidades astronómicas, com temperaturas que vão desde perto de 1200 kelvin junto à estrela até cerca de 100 kelvin nas zonas mais exteriores. É um casulo organizado de material que resiste no meio de um dos lugares mais violentos da galáxia.

Porque é que isto importa

A água e a poeira de silicatos são ingredientes fundamentais para a formação de planetas e para a química que sustenta a vida. (imagem ilustrativa)
A água e a poeira de silicatos são ingredientes fundamentais para a formação de planetas e para a química que sustenta a vida. (imagem ilustrativa)

Estrelas evoluídas como a IRS 3 libertam material para o espaço à medida que envelhecem, semeando o meio interestelar com poeira e moléculas. Este resultado mostra que elas conseguem enriquecer até o centro galáctico com poeira e água recém-formadas, fornecendo assim alguns dos blocos de construção para futuras gerações de estrelas e planetas.

A questão tem também um lado profundo. A água e a poeira de silicatos são ingredientes essenciais para a formação de planetas e, em última análise, para a química associada à vida. Descobrir que estes materiais sobrevivem num local tão hostil alarga a nossa ideia sobre onde, no universo, tais ingredientes podem existir e persistir ao longo do tempo.

Nada disto seria possível sem o instrumento MIRI do Webb. Ao trabalhar no infravermelho médio, consegue espreitar através da poeira em direção ao centro da galáxia e ler as assinaturas espectrais deixadas pela poeira e pela água. É uma capacidade que os telescópios anteriores simplesmente não tinham com este nível de detalhe e sensibilidade.

O que se segue

As observações fazem parte do programa MICONIC, dedicado à caracterização no infravermelho médio de centros de galáxias emblemáticos, e foram obtidas em 2025. O estudo foi publicado na revista científica Astronomy and Astrophysics. Novas campanhas de observação do centro galáctico já estão previstas para os próximos tempos.

O centro da Via Láctea é um laboratório natural para a astrofísica mais extrema, e o Webb está a transformar a forma como o vemos, revelando química e comportamentos estelares antes ocultos. Este resultado junta-se a uma série de descobertas do telescópio que têm vindo a reescrever partes inteiras da astronomia moderna.

O passo seguinte será estudar mais estrelas próximas do Sagittarius A para perceber se esta sobrevivência de poeira e água é comum ou excecional, e o que isso significa para o ciclo de vida da matéria no coração das galáxias. Por agora, fica a imagem marcante de que, mesmo ao lado de um buraco negro monstruoso, os ingredientes dos mundos conseguem perdurar.

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