Miguel SousaVIEW PROFILE →
A caminho de um asteroide 'ferido': como a missão Hera vai testar a defesa planetária da Terra
Depois de a NASA ter atingido o asteroide Dimorphos em 2022, a sonda europeia Hera prepara-se para chegar ao local em novembro de 2026. A sua missão: confirmar se a humanidade consegue mesmo desviar um asteroide perigoso.
Em setembro de 2022, a humanidade fez algo inédito: atingiu deliberadamente um asteroide para tentar mudar a sua trajetória. Foi a missão DART, da NASA. Agora, quatro anos depois, chega a hora de verificar os resultados ao pormenor. A sonda europeia Hera, da Agência Espacial Europeia (ESA), está prestes a chegar ao local para completar o primeiro verdadeiro teste de defesa planetária da história.
O impacto que mudou uma órbita
O alvo é o pequeno Dimorphos, uma espécie de 'lua' que orbita o asteroide maior Didymos. Em 2022, a sonda DART colidiu com Dimorphos a cerca de 6,6 quilómetros por segundo, num impacto que encurtou a sua órbita em torno de Didymos em aproximadamente 33 minutos. Foi a prova de que um embate cinético pode, de facto, alterar o movimento de um corpo celeste, algo que até então era apenas teoria.
A chegada da Hera

É aqui que entra a Hera, cuja chegada ao sistema está prevista para novembro de 2026, cerca de um mês mais cedo do que o inicialmente planeado. Ao contrário da DART, que foi uma missão de impacto, a Hera é uma missão de investigação. O seu papel é estudar em detalhe a cratera e as alterações deixadas pelo embate, medindo a massa e a composição exata dos dois corpos celestes.
Pequenos satélites, grande ciência
A Hera não viajará sozinha. A bordo leva os primeiros CubeSats europeus para o espaço profundo, dois pequenos satélites chamados Milani e Juventas. O Milani irá analisar a superfície dos asteroides, enquanto o Juventas fará algo inédito: sondagens de radar para 'ver' o interior de Dimorphos, revelando finalmente do que é realmente feito, por dentro, este tipo de objeto.
Porque é que isto importa
Toda esta operação tem um objetivo muito prático: proteger a Terra. Embora não exista qualquer ameaça conhecida por parte de Didymos ou Dimorphos, aprender a desviar asteroides é uma espécie de seguro para o futuro. Só com uma missão dedicada como a Hera é possível validar plenamente a técnica da DART e perceber se poderá ser aplicada, um dia, a um asteroide realmente perigoso.
A Hera é também um marco para a Europa, que assume assim um papel central na defesa planetária global. Será a primeira sonda a encontrar-se com um sistema de asteroides binário, abrindo caminho a uma nova forma de explorar estes vestígios da formação do Sistema Solar. Nos próximos meses, boa parte da comunidade científica terá os olhos postos neste pequeno, mas decisivo, encontro no espaço.






